Instituto Moreira Salles

Bernardo Carvalho: diário de Berlim

Fim

IMS | 27.02.2012, 17:49

No recente The Angel Esmeralda, que reúne os contos de Don DeLillo publicados entre 1979 e 2011, há uma história, de 2002, inspirada na série de quinze quadros em preto e branco que Gerhard Richter pintou sobre o chamado “Outono Alemão” — a escalada de atos terroristas que desencadeou, em 1977, uma crise sem precedentes na Alemanha do pós-guerra. A série intitula-se 18 de Outubro de 1977 e se refere à data na qual três membros da Facção do Exército Vermelho foram encontrados mortos em suas celas, na prisão de segurança máxima de Stammheim, em Stuttgart, onde cumpriam pena.

Leia mais

Sons inexistentes

IMS | 22.02.2012, 12:28

Todo mundo que eu conheço gostou de O artista. O que torna tanto mais difícil e constrangedor explicar para todo mundo por que acho O artista um lixo. Tem a ver com o que eu chamo de falta de autoria, que é um argumento subjetivo e em grande parte duvidoso, eu concordo, porque também não é de toda autoria que eu gosto. Não gosto, por exemplo, dos filmes de Zhang Yimou, que têm um estilo tão imediatamente reconhecível quanto os livros do Paulo Coelho ou de Danielle Steel, à sua maneira. O artista não tem autoria. E isso tampouco quer dizer que ele seja mais ou menos comercial, mais ou menos holywoodiano.

Leia mais

O barbeiro de Neuköln

admin | 13.02.2012, 16:13

A notícia de que a retrospectiva de Gerhard Richter chega a Berlim esta semana, comemorando os 80 anos do pintor, me faz lembrar a última vez que cortei o cabelo na cidade — e que preciso com urgência encontrar um novo barbeiro. Um amigo, que chama de preguiçoso quem corta cabelo com máquina em vez [...]

Leia mais

A neve é um casaco esplêndido e quente

IMS | 06.02.2012, 15:39

A cidade está coberta de neve, oito graus negativos. Começo a ler o pequeno volume, recém-publicado em inglês, com as “Histórias de Berlim”, de Robert Walser (tradução de Susan Bernofsky, ed. New York Review Books). O escritor suíço viveu aqui entre 1907 e 1913. Veio juntar-se ao irmão, Karl, cenógrafo de renome no fervilhante meio [...]

Leia mais

Transgressão e visibilidade

IMS | 30.01.2012, 16:33

Por coincidência, os dois filmes que vi durante minha passagem recente por Bruxelas tratavam de sexo e dinheiro. E um parecia ser o desdobramento moral do outro. Shame, de Steve McQueen, acompanha a rotina de um executivo viciado em sexo, em Nova York. Sleeping beauty, de Julia Leigh, conta a história de uma jovem universitária, na Austrália, que é contratada para dormir, sob efeito de soníferos, com velhos impotentes que se servem do seu corpo desfalecido para exercitar, sem constrangimento nem penetração, o que lhes resta de fantasia.

Leia mais

Bonde 51

IMS | 23.01.2012, 16:32

Vim parar em Bruxelas com uma trupe de teatro. Estão fazendo ações na rua. Eu os acompanho. É uma espécie de pesadelo. Fico sabendo que vão se dividir em três grupos: enquanto uma atriz oferece café e bolachas aos passageiros do bonde 51, que corta a cidade de norte a sul, duas outras se postam no meio do corredor de outro bonde da mesma linha, inamovíveis aos pedidos dos passageiros que querem passar, e um casal de atores se divide entre o bonde e as paradas, ambos enrolados, como múmias mal embalsamadas.

Leia mais

Arquitetura imaterial

IMS | 16.01.2012, 16:03

De repente, a própria imponência do prédio (a dimensão inumana, mais pra nave extraterrestre do que propriamente pra navio) já não me permitia ver nele outra coisa além das relações entre a arquitetura e o poder. E seria até muito educativo se nas formas se vislumbrasse algum tipo de crítica ou ironia. Os arquitetos dizem que todo o prédio foi concebido em função da música e da acústica (a sala principal deve muito à Filarmônica de Berlim, desenhada por Hans Scharoun, em 1956). Mas no lugar da música eu só via – maravilhado, tenho que concordar (e não é esse o objetivo?) – um monumento ao poder.

Leia mais

Intercâmbio cultural

IMS | 06.01.2012, 15:57

Depois de nove meses gozando do sentido de ordem dos alemães, fui passar o Natal no Rio. E o que é que nove meses, a levar pito de velhinhas toda vez que atravessava a rua com o sinal de pedestres fechado (e sem nenhum carro vindo de lugar nenhum) ou pegava a ciclovia na contramão ou atravessava na faixa de pedestres sem desmontar da bicicleta, fizeram comigo? Já não sou capaz de ver nada além de sexo nas ruas (e ciclovias) do Rio.

Leia mais

Vício e virtude

IMS | 12.12.2011, 17:08

No famoso prefácio a sua peça Senhorita Júlia (1888), Strindberg escreveu que “o ‘vício’ tem um reverso que muito se assemelha à virtude”. É um pensamento insuportável num mundo de certezas perdidas como o nosso. Queremos crer, desesperadamente, que o vício seja mesmo o oposto da virtude. Queremos uma tábua de salvação. Vemos o vício em toda parte, onde ele não devia estar, e já não sabemos como combatê-lo. O pensamento de Strindberg sobre a semelhança dos opostos é essencial para a compreensão da peça. Mas nós queremos poder voltar a acreditar em alguma coisa.

Leia mais

Amizade

IMS | 05.12.2011, 15:38

Não há autor no mundo que não tenha se sentido alguma vez injustiçado. O reconhecimento está sempre aquém da autoimagem, que é uma forma natural de defesa contra a insegurança. E o ressentimento é um lugar-comum a evitar. Mas há circunstâncias excepcionais em que a violência e os horrores da realidade terminam por transformar, mesmo entre as pessoas mais fortes, essa semente em loucura.

Leia mais
 
IMS