Instituto Moreira Salles

Posts por Autor

Círculos de giz

Bernardo Carvalho | 21.11.2011, 17:13

Cesena, espetáculo de Anne Teresa De Keersmaeker, estreou no Festival de Avignon deste ano, ao ar livre, às quatro da manhã. A coreógrafa belga já vinha trabalhando desde o espetáculo anterior com o grupo coral Graindelavoix, especializado em música antiga e na ars subtilior. Em Avignon, os bailarinos de Keersmaeker e os cantores do Graindelavoix começavam o espetáculo no escuro, e assim permaneciam, dançando e cantando por mais de meia hora, até a aurora, como se invocassem o sol com a dança e a música. É uma das coisas mais bonitas que eu já vi em dança.

Leia mais

Turistas

Bernardo Carvalho | 16.11.2011, 11:56

E embora o quadro de Vermeer seja deslumbrante e o de Dürer, a meu ver, horrendo, é nesse último que eu reconheço tudo o que mais admiro tanto na arte como na literatura. Essa capacidade de “fazer buracos na linguagem”, como dizia Beckett, de criar inadequações que só podem alargar o mundo a sua volta e fazer ver além das convenções, por mais canhestras e falhadas que essas inadequações pareçam à primeira vista. Infelizmente, reconhecemos cada vez menos a via de Dürer.

Leia mais

Tabela periódica

Bernardo Carvalho | 07.11.2011, 16:01

A living man declared dead and other chapters (Um homem vivo declarado morto e outros capítulos) é uma exposição de fotos em que o mais importante está fora das fotos. As imagens só passam a fazer sentido quando ordenadas numa narrativa, numa espécie de “código”, acompanhadas de textos explicativos. A foto já não é suficiente para fazer entender aquilo que ela mostra ou representa. Pode parecer o inferno para quem, como eu, já não suporta ler explicações de obras de arte, mas não é. Porque é radical: a explicação é a própria obra.

Leia mais

Crianças

Bernardo Carvalho | 31.10.2011, 17:01

Não há nada mais assustador do que crianças de um país cuja língua você não fala – quando você está no país delas, é claro. Quem foi que inventou que criança é inocente, ainda mais falando alemão? Com adultos, você sempre pode recorrer a outra língua, na esperança de ser compreendido. Com crianças, não. Basta eu ver uma criança na rua pra mudar de calçada. Elas farejam os estrangeiros como gatos à procura de alérgicos.

Leia mais

Beijos escritos

Bernardo Carvalho | 24.10.2011, 16:31

Kafka atribui às cartas e à possibilidade de escrevê-las toda a infelicidade de sua vida. As cartas enganam até quem as escreve. Elas são um “comércio com fantasmas, não apenas com o fantasma do destinatário (…); o fantasma cresce por debaixo da mão que escreve, na carta que ela redige”. Contra essa propagação espectral, a humanidade procurou estabelecer “relações naturais”, inventou “o caminho de ferro, o automóvel, o aeroplano”, em vão: “(…) isso já não serve de nada (…): o adversário é tão mais calmo, tão mais forte. Depois do correio, inventou o telégrafo, o telefone, a telegrafia sem fios. Os espectros não morrerão de fome, mas nós pereceremos”.

Leia mais

A piscina

Bernardo Carvalho | 17.10.2011, 16:31

Éramos três dividindo a mesma raia, indo pela direita e voltando pela esquerda. Estava quase atropelando a senhora à minha frente, que prosseguia nadando peito como um cisne passeia num lago, indiferente à minha presença, enquanto eu tentava cumprir a minha meta, nadando crawl. Chegávamos sempre juntos à borda da piscina, mas, em vez de me ceder a vez, como seria natural e educado, ela se desdobrava para não me deixar passar e seguir me obstruindo o caminho. Eu não podia ultrapassá-la, porque sempre calhava de o terceiro nadador, um senhor igualmente lerdo, estar vindo em sentido oposto.

Leia mais

O fotógrafo

Bernardo Carvalho | 26.09.2011, 15:03

Com o advento do e-mail, ninguém mais pode terminar uma carta ou uma mensagem com um simples “abraço” (…). Tem que ser sempre “um grande abraço” ou “um abração” (…). O e-mail é um dos meios de comunicação mais hiperbólicos e traiçoeiros (…). Qualquer ambivalência pode criar mal-entendidos e soar agressiva, de modo que tomei todas as precauções para não ferir os brios do fotógrafo, explicando que não me sentia à vontade sendo fotografado e que, portanto, se não havia um motivo prático e imediato para a foto, preferia declinar o convite. A resposta foi imediata: “Não me parece que você esteja pouco à vontade nas fotos que vi na internet”.

Leia mais

Mais ou menos zero

Bernardo Carvalho | 19.09.2011, 15:53

Mais ou menos zero – Uma estação subpolar, de Christoph Marthaler, na Volksbühne, é mais ou menos isto: uma peça sobre mais ou menos nada. E mais ou menos tudo. Mais ou menos zero é a zona de temperatura onde a menor e mais imperceptível variação pode ter as consequências mais dramáticas, levar do congelamento ao degelo em segundos, e vice-versa. É nessa zona que Marthaler atua, fazendo um teatro minimalista, que recusa as convenções teatrais, para alcançar a partir de quase nada o que o espetáculo convencional e o drama já não são capazes de produzir.

Leia mais

Verão de um dia só

Bernardo Carvalho | 29.08.2011, 15:53

A minha primeira experiência no Freiluftkino de Kreuzberg confirmou o que eu já suspeitava: numa cidade que não se destaca pela beleza nem por atrativos evidentes, tampouco se desperdiçam as menores possibilidades de prazer (“Pobre, mas sexy”, foi como o prefeito gay, Klaus Wowereit, a definiu há anos, lançando o lema da cidade, hoje repetido à exaustão por qualquer guia turístico).

Leia mais

Irregular

Bernardo Carvalho | 22.08.2011, 15:49

Só a mais vergonhosa ignorância para me fazer suspeitar de um chiste ao ler o obituário de Agota Kristof, há três semanas, no Libération. É incrível que eu nunca tivesse ouvido falar nela, publicada no Brasil desde 1987, pela Rocco. É verdade que o nome também não ajuda. Bastou eu ler o título do artigo para achar que era mais uma dessas piadas que o Libération costuma publicar, no verão, para entreter os leitores em férias – e que este ano começou com uma hilariante vida de Cristo. Achei que Agota Kristof fosse um trocadilho com Agatha Christie.

Leia mais
 
IMS