Clint Eastwood e as liturgias da morte
Um bom antídoto contra os blockbusters infantilizadores que inundam as telas nas férias é a grande retrospectiva dedicada pelo Centro Cultural Banco do Brasil à obra de Clint Eastwood. Na mostra, que vai até o fim do mês em São Paulo, de 13 de dezembro a 8 de janeiro em Brasília e em janeiro (do dia 13 ao 31) chega ao Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro, serão exibidos 42 longas-metragens dirigidos e/ou estrelados por ele.
Dos faroestes espaguete de Sérgio Leone dos anos 60 ao drama sensitivo Além da vida, do ano passado, é possível acompanhar o amadurecimento artístico e humano de Eastwood pelas mudanças no seu modo de encarar a morte.
Forçando um pouco a barra, podemos dizer que, na primeira parte da trajetória do ator/diretor, a morte era uma festa, um espetáculo, uma catarse, uma apoteose, quase uma epifania.
Olho por olho
Nos faroestes alheios em que Eastwood atuou, e nos primeiros que dirigiu, o assassinato do oponente era justificado pela lógica do “olho por olho, dente por dente” que predominava numa terra sem lei. Nos policiais de Don Siegel, o que legitimava o homicídio brutal era o caráter de cruzada contra o crime, de punição exemplar dos facínoras.
Essa licenciosidade homicida sustentava e condimentava o culto do herói americano com todos os seus atributos: individualista, cool, destemido, implacável, certeiro.
Pois bem. A certa altura do cinema de Eastwood, a figura desse herói monolítico começa a rachar. Seus valores tornam-se instáveis, suas certezas balançam.
A par dessa crise do herói, também a visão da morte começa a mudar, a se adensar, a ganhar peso dramático e moral.
É difícil determinar com precisão o ponto de virada desse processo. Talvez tenha sido Bird (1988), com sua escolha, como herói trágico, do grande músico negro Charlie Parker, derrotado pelas drogas, pelo racismo, pela morte da filha, por um mundo que não entendia sua arte.
Pode ser que o ponto de inflexão tenha sido Coração de caçador (1990), em que Eastwood encarnava outro de seus ídolos, o cineasta John Huston, machão como ele, mas eivado de contradições e movido por uma auto-ironia e um savoir-vivre que transcendiam qualquer maniqueísmo.
Autocrítica pungente
Mas o filme que, a meu ver, realiza cabalmente a transmutação humana e artística de Clint Eastwood é Os imperdoáveis (foto acima), o extraordinário faroeste crepuscular que ele dirigiu e estrelou em 1992. É impossível deixar de ver a história do pistoleiro aposentado que larga seu rancho e volta à ativa em troca de um punhado de dólares para vingar uma prostituta supliciada como uma pungente autocrítica do ator/diretor.
Algumas cenas são eloquentes, em particular aquela em que um jovem falastrão metido a pistoleiro entra numa crise agônica ao ser confrontado com a possibilidade real de matar um ser humano. Poucos momentos do cinema mostraram de modo tão vívido como é difícil, como é pesado, tirar a vida de uma pessoa.
A morte como fardo
Na sequência final – sangrenta, mas apocalíptica em vez de apoteótica –, o veterano Will Munny, o personagem de Eastwood, apresenta-se como alguém que matou mulheres e crianças, que matou “quase tudo o que anda ou rasteja”, como se tratasse de uma condenação, uma sina, uma maldição. É quase um fantasma surgido das trevas. Estamos longe da violência festiva e automática dos filmes dos anos 60 e 70. Aqui, essa cena terrível e admirável:
Daí para a frente, multiplicam-se no cinema de Clint Eastwood os momentos em que a morte é retratada quase como um ritual às avessas, uma passagem tão dolorosa para quem a sofre como para quem a causa.
Se, nos faroestes e policiais do jovem Eastwood, a morte era uma explosão espetacular, nas obras mais maduras ela é como uma implosão, um abismo silencioso de dor e culpa, sem direito à catarse.
Chamo a atenção para apenas dois exemplos, talvez os mais belos em sua tensão quase insuportável. O primeiro é o momento de Sobre meninos e lobos (2003) em que, num cais de rio, um homem sacrifica (como numa cena bíblica) seu amigo de infância, por julgar que este violentou e matou sua filha. Aqui, o trailer do filme:
O outro rito de morte, ainda mais complexo do ponto de vista moral, está no final de Menina de ouro (2004), e quem não quiser saber o desfecho do filme deve parar por aqui. Na cena em questão, movido pela compaixão mas também pela culpa, o treinador de boxe Frank Dunn (Eastwood), como um anjo da morte, esgueira-se pelas sombras de um hospital deserto para abreviar a vida infeliz de sua pupila (Hillary Swank), que jaz imobilizada numa cama. Aqui, o terrível pedido que ela lhe faz
e do qual ele procura escapar, trazendo no rosto a angústia, o sofrimento e o cansaço de quem já matou gente demais.
Era quase lógico que, aos 80 anos, o passo seguinte desse artista atormentado pela morte fosse um mergulho na descabelada esperança humana de descobrir e explorar o que existe além da vida.




























9 comentrios para "Clint Eastwood e as liturgias da morte"
Caro Geraldo, muito boa a sua análise da grande obra de Clint Eastwood, ainda assim eu acho que ele já era um grande diretor já no início de carreira, como comprova no seu segundo filme como diretor; o faroeste “High Plains Drifter”, ou como ficou conhecido aqui no Brasil “O Estranho sem nome”, acho esse filme notável.
abs
caro elson,
sem dúvida o talento e o vigor já estavam lá, mas é impressionante o que ele amadureceu nas décadas seguintes, sobretudo do ponto de vista ético e humano.
abração, volte sempre.
Olá, JGC! Gosto muito dos trabalhos do Clint Eastwood, seja como ator ou diretor. Especialmente, aqueles pós-anos 90. Há muito, analiso este amadurecimento a que você se refere em seu texto. Acho até que já havia lido um texto escrito por você em outro espaço. Acho que “Gran Torino” também mostra, de forma contundente, o intenso pesar de tirar a vida de outra pessoa. Você gostou deste filme? E as expectativas para o novo, “J. Edgar”? Bem, eu estou ansioso. Grande abraço e obrigado por esta oportunidade. Johnny.
caro john:
falei brevemente sobre o amadurecimento de clint eastwood numa crítica do filme “invictus”, se não me engano.
também gosto muito de “gran torino” e acho que tem tudo a ver com esse tema da morte. minha expectativa quanto a “j. edgar”? é a melhor possível, se bem que a tarefa de biografar uma figura histórica bem conhecida acaba por impor restrições que não existem quando se trata de personagens ficcionais. a ver.
abração, obrigado pela visita e pelo comentário.
Caro Zé, aqui estou outra vez! Excelente análise da obra de Clint Eastwood que, na contramão da maioria, amadureceu do ponto de vista estético e sobretudo da essência do cinema. Poucos diretores conseguem fazer tantos filmes bons, ou seja, manter tamanha regularidade. Aliás, a maioria não passa de uma única boa obra, como Terrence Malick e o seu magistral “Além da Linha Vermelha”.
Claro que se trata de uma análise – muio bem feita ressalte-se -, da mostra sobre Clint Eastwood, de modo que caberiam comparações. Mas a verdade é que ninguém conseguiu até hoje descortinar a paisagem da alma humana e abordar a morte como o diretor sueco Ingmar Bergman. Poderia citar vários de seus filmes, porém basta falar sobre “O Sétimo Selo”.
Concordo que está muito difícil encontrar alguma coisa interessante em matéria de cinema em meio a essa profusão de filmes infantilizadores.
Um abraço!
caro marcos:
você tocou no ponto essencial: ao fazer um cinema cada vez mais maduro, mais “adulto”, eastwood tem ido na contramão da tendência atual, que é de tornar tudo rasteiro e pueril.
obrigado pelos elogios.
abraço, volte sempre.
São excelentes os filmes da mostra. Mas sinto falta de Two Mules For Sister Sara. Ele e Shirley MacLaine estão impecáveis.
bem lembrado, heitor.
eu não tinha reparado que estava faltando esse filme.
abraços, volte sempre.
Sou grande fã desse diretor/Ator, ótimo post. Fabuloso.