Instituto Moreira Salles

Do que não falamos quando falamos de crítica – por Antônio Xerxenesky

IMS | 01.11.2011, 15:40

 

O Crítico Literário Hipotético tem quarenta e dois anos. É doutor em letras, e leciona na faculdade onde se formou, tentando ensinar qualquer coisa para alunos desinteressados de 18 anos. É moderadamente feliz em seu casamento; fantasia com duas alunas suas, mas não tem coragem de fazer nada, ao contrário de seus colegas. Sofre de úlcera. Recentemente, uma dor de dente o tem incomodado muito. Pode ser bruxismo, mas ele não quer usar aparelho dentário aos quarenta e dois anos. Ele escreve resenhas para jornais e revistas importantes. Sente que a crítica literária no âmbito da academia é muito restrita – uma forma de comunicação que não atinge mais do que meia dúzia de pessoas. Suas ideias naquele mundo não repercutem ou reverberam. Por isso escreve também as infames críticas jornalísticas – pelo dinheiro que não seria. Recebe caixas e caixas de livros com lançamentos. As editoras nem mais perguntam se ele quer receber o lançamento X ou Y, apenas mandam os livros.

Um jornal encomendou uma resenha do livro novo de Philip Roth e também do Romance Promissor do Jovem Escritor Bacana. O Crítico Literário Hipotético começa a ler o Romance Promissor do Jovem Escritor Bacana. Observa a foto do rosto do Jovem Escritor Bacana na orelha do livro. Lembra-se que já viu o rapaz em algum evento literário, cercado de admiradores. Lembra-se das declarações polêmicas que o jovem fez nas redes sociais. Pela trigésima página, larga o livro, sem vontade de ler mais, e decide começar o novo de Roth. Como sempre, Roth trata do medo da morte, das doenças que chegam com a idade (o crítico se recorda de sua úlcera), do desejo sexual que parece minguar com o passar dos anos (o crítico se recorda de suas duas alunas, aquelas duas alunas específicas), da relação entre um homem mais velho e uma garota mais jovem (o crítico passa a enumerar, mentalmente, livros nos quais um professor seduz uma aluna: Desonra, de Coetzee; Partículas elementares, de Houellebecq; Sobre a beleza, de Zadie Smith; uns dois ou três livros do próprio Roth). No fim de semana, o crítico senta e escreve duas resenhas. Fala sobre a função da literatura, a perplexidade do escritor perante o mundo. Fala de Kafka, Borges e Piglia. Fala do cuidado estilístico, da dificuldade em construir personagens críveis. Não menciona, em momento algum, a úlcera, as alunas que povoam sua imaginação. Não comenta a vergonha que consideraria usar um aparelho dentário aos quarenta e dois anos.

 

***

 

Não sou um crítico profissional. Costumo escrever resenhas aqui e acolá e tenho uma produção acadêmica tímida. Valorizo e aprecio a profissão de crítico. Sonho com uma carreira nessa linha, inclusive. De modo geral, me dão a liberdade de escolher quais livros quero resenhar, e sempre prefiro livros que acho que vou gostar (de um autor que já me agrada, ou algum desconhecido sobre o qual ouvi bons comentários). Se achar que o livro não vale um tostão, direi isso com todas as letras, embora considere um desperdício dar espaço para livros que não merecem a atenção do leitor. Afinal, como todos estão cansados de saber, os cadernos culturais são terrivelmente magricelas. Porém sempre me ponho a pensar o seguinte: quanto da minha vida pessoal não está influenciando aquilo que escrevo e minhas maneiras de ler um livro?

A visão “biografista” que tenta buscar relações entre a obra de um autor e sua vida pessoal está morta e enterrada desde o advento das teorias do formalismo russo. Mas e a biografia do crítico? A úlcera do Crítico Hipotético não pode ter deixado o sujeito indisposto para certas leituras? O fato de que ele passou dos quarenta não o deixará levemente rancoroso em relação a um jovem escritor que é visto como uma “promessa”? Seus problemas amorosos não ecoarão em sua cabeça ao se deparar com narradores de Roth, sempre homens brancos de classe média com problemas de relacionamento?

Se, de fato, todas estas questões influenciam o julgamento crítico, o que ele pode fazer? Deveria abordar uma perspectiva totalmente pessoal e subjetiva, começar uma resenha dizendo: “Ontem eu estava andando na rua e…”? Ou então buscar uma leitura mais interpretativa da obra analisada, se distanciando, assim, de julgamentos de valor? É o que tenho tentado fazer em minhas últimas resenhas, com o slogan mental: “Mais interpretação, menos guia de compras”. Mas nossas interpretações não seriam igualmente abaladas por motivos extraliterários?

Nunca vou me esquecer de quando emprestei minha cópia de O passado, do Alan Pauls, para um amigo mais jovem. O passado figura entre meus livros favoritos de todos os tempos, e a obra não transmitiu nada a esse meu amigo. Ele não extraiu nenhuma interpretação empolgante do livro. Era apenas um romance bem escrito e nada mais. Teria a falta de um relacionamento amoroso turbulento no passado o impedido de fazer uma leitura mais rica do livro de Pauls? É o que especulo. Quando contei aos meus pais que detestei Desvarios no Brooklyn, de Paul Auster, eles retrucaram que eu não estava na idade certa para ler aquele livro. Quanto importa a idade? Quanto pesa a bagagem emocional? Não sei, não faço ideia. Talvez, quando descobrir, possa me considerar um crítico de verdade.

 

 

* Antônio Xerxenesky é autor de A página assombrada por fantasmas (2011)

** Na imagem da home que ilustra este post, o escritor argentino Alan Pauls

 



12 comentrios para "Do que não falamos quando falamos de crítica – por Antônio Xerxenesky"

  1. Felipe Charbel
    01.Nov.2011, 19:48    Reply

    Nesky, algumas a partir do seu texto (e não necessariamente sobre ele):

    1. É óbvio que as circunstância do observador influenciam a análise do crítico. Mas o observador sempre pode se observar no ato de observação — e, com isso, ele pode trabalhar seus valores, para que estes sejam pontos de partida (no sentido auerbachiano), condições constitutivas do ato de fala, e não veículos de preconceitos. Essa auto-reflexão deve acompanhar o crítico todo tempo.

    2. Fundamental, na crítica (para mim, mas o “para mim”, aqui, poderia ficar implícito, porque é óbvio que na crítica tudo é sempre “para mim”), o que para mim é uma espécie de dever ético, é a tentativa de compreender o que está em jogo numa certa obra, de se abrir para o que o autor propõe. Ou seja: o único dever do crítico, me parece, é instituir o diálogo com a obra e o autor. Essa compreensão pode ser potencializadas por certos gatilhos — a dor de dente, as alunas, o casamento feliz, o casamento infeliz –, mas também pode ser obliterada pelos mesmos gatilhos. Cabe ao crítico, nesse último caso, reconhecer seus limites, e dizer, quando necessário: “não dá, não consigo, não posso, não cheguei, não fiz jus ao que li”. Já li boas resenhas que partem desse “não consigo”.

    3. A crítica negativa é tão ou mais importante que a positiva. Um dos meus livros preferidos é “Tolstoi ou Dostoievski”, do George Steiner. Lá, o Steiner diz que a crítica verdadeira é sempre um ato de amor. Gosto da frase, mas às vezes penso que uma crítica negativa pode ser muito instrutiva. Penso, por exemplo, na crítica do Alcir Pécora ao livro do Edney SIlvestre. O texto aponta muitos dos defeitos presentes em boa parte dos escritores brasileiros contemporâneos. Como diagnóstico, ele é perfeito. Assim, mesmo que o livro do Edney Silvestre seja menor, a crítica atua como ponto de partida para um debate sobre os rumos (ou sobre a falta de rumo) da literatura brasileira contemporânea.

    4. Sobre a idade: não acho que seja esse o ponto. Pesa a bagagem, isso sim. E um talento específico para a interpretação, para discernir o que está em jogo, para mapear tradições, apontar equívocos e identificar acertos. Em suma, identificar, como leitor experimentado, a qualidade ou a falta dela, lançar a bola para que outros cortem.

  2. 02.Nov.2011, 11:37    Reply

    Belo texto e belo comentário do Charbel, embora pra este último eu gostaria de deixar um comentário sobre o tópico 4. Quando diz “pesa a bagagem”, você se refere mais à bagagem de vida ou de leitura? Porque tenho pra mim que a idade influencia bastante na maneira como lemos um livro, às vezes ela é decisiva. Lembro de um professor que dizia: “vocês quando mais velhos vão apreciar mais e melhor o Brás Cubas” [adicione o dedo em riste e o tom de voz profético], e fico mesmo com a impressão que o leitor velho (mais que o experiente) possa desfrutar esta leitura de maneira especial. Assim como On the Road pode ser decisivo para o leitor jovem (não necessariamente inexperiente) e beirar o irrelevante para um senhor de idade que tenha perdido o tesão pela aventura etc etc.

    Curiosidade: ao ler uma crítica, sempre costumo procurar saber da biografia do autor dela.

  3. 02.Nov.2011, 12:59    Reply

    gostei. acho bacana que o crítico se envolva com o objeto criticado, fazendo considerações pessoais que possam iluminar o texto, a crítica.

  4. 02.Nov.2011, 13:22    Reply

    AX, há muito o que comentar, inclusive explorando mais, e de outra maneira, coisas às quais o FC aludiu aí nos comentários dele. Mas tem um lance, um momento no qual vc parece falar de sua compreensão do Agon, que me interessou. Vc diz:

    ” Se achar que o livro não vale um tostão, direi isso com todas as letras, embora considere um desperdício dar espaço para livros que não merecem a atenção do leitor.”

    Então, lhe pergunto se há um caso em que vc tenha ocupado seu lugar de comentador de literatura para “dizer com todas as letras que o livro não vale um tostão” — eu mesmo nunca vi, e estou sempre lendo suas coisas, aqui, em seu blog, no Estadão, e até na bendita Veja. Pois me parece que a crença que vc expressa na sequencia da frase interdita o que vc diz no início. Há um caso, vc já criticou com severidade um trabalho literário? Convenhamos que “desperdício de espaço” não é um bom argumento: pelo que vai aí parece mais que vc acha uma ignomínia que um crítico diga que um texto literario, enquanto tal, não vale um tostão. Ou me engano?

  5. Felipe Charbel
    03.Nov.2011, 03:04    Reply

    Lucas, acho que as duas coisas (vivência e leitura) são igualmente importantes, e ao fim se confundem. Para um leitor voraz, boa parte das experiências que contam são experiências solitárias de leitura. Mas as vivências extra-literárias obviamente condicionam a perspectiva, o lugar, de quem lê um texto. E nesse caso o acumulativo não implica necessariamente ler melhor. Eu, por exemplo, li Henry Miller muito velho, e não curti tanto. Li Machado cedo demais, e mesmo sem conhecer nada das coisas do mundo, achei um barato. E se tivesse lido Miller aos 16, e Machado aos 34, será que meus juízos seriam diferentes? Eu não tenho a menor ideia! São experiências únicas, possibilitadas pela convergência de uma série de fatores que não vão mais se repetir, válidas em si.

    Mas a crítica envolve uma experiência de leitura muito particular, que exige um alto grau de especialização. Qualquer um pode falar, de forma eloquente, de forma convincente, sobre um livro. Mas daí a escrever um texto para um jornal ou uma revista, um livro… Nesse caso, o acumulativo é sim bem importante — e quando falei em bagagem, lá no primeiro comentário, estava me referindo a isso: formação, conhecimento das tradições literárias, críticas, teóricas e filosóficas, preparo, construção de repertório, definição de modelos (positivos e negativos). Ao fim, isso acaba sendo, me parece, mais importante que todo o resto, ao menos para o crítico. Não estou querendo dicotomizar. O crítico é um leitor, antes e acima de tudo, e a vivência determina as experiências. Se bem que vivência pode ser algo bem prosaico. A minha, por exemplo, é totalmente prosaica!

    O problema do crítico é que se espera dele um posicionamento. Ele é cobrado por suas posições. Um exemplo: o comentário acima, do Antonio Marcos. Isso aqui é uma espécie de praça pública, e todos nos sentimos no direito de julgar, comentar, refutar ou concordar com os pontos de vista do Nesky. Nos sentimos no direito porque temos esse direito. O que diz algo sobre as expetativas “da sociedade” (tá, estou sendo utópico… a sociedade não está nem aí para a crítica literária) em torno desse leitor que é o crítico: que ele seja capaz de construir argumentos persuasivos, bem fundamentados, que ele seja honesto em seu julgamento, que evite compadrios. Mas também que ele seja duro, firme, enfático, que saiba apontar equívocos (com que critérios? essa é a pergunta. Com os critérios que a bagagem tornou possível a ele, ao crítico, construir, e que também são julgados quando o crítico lança seu texto na praça pública, tornando-se vidraça).

    Em A Literatura e os Deus, no último capítulo, Roberto Calasso fala sobre a crítica produzida por escritores, que para ele tem um valor especial. Quando os escritores falam de literatura, diz o Calasso, estão falando da mesma coisa. De alguma coisa que eles dominam, de um saber-fazer, de algo compartilhado. Nesse caso, a bagagem é alguma coisa introjetada, intrínseca, quase uma segunda pele. Coetzee falando sobre Roth, por exemplo; Nabokov sobre Tolstoi, etc. A noção de bagagem ganha aí um outro sentido, uma dimensão quase impossível de conceber.

  6. Xerxenesky
    03.Nov.2011, 11:07    Reply

    AM: bem observado, bem observado. Já critiquei pontos específicos em diversos livros, mas nunca tive que lidar “profissionalmente” com uma obra que absolutamente detestei. Mas é algo que faria se me pedissem resenha, digamos, de “Nêmesis”, do Philip Roth, ou de “As teorias selvagens”, de Pola Oloixarac, dois livros que abomino. São comentários que faço em meios não-profissionais (i.e., nas redes sociais) e que não teria problema de fazer para um veículo sério.

  7. Xerxenesky
    03.Nov.2011, 11:13    Reply

    Charbel: sobre seu ponto 3.
    Não li a resenha de Pécora sobre o Edney Silvestre – assim como não li o livro do próprio Edney – e concordo, de modo geral, que uma crítica negativa pode servir para (re)direcionar uma discussão vigente, diagnosticar algo maior etc.
    Mas uma coisa não ficou clara para mim. Você acha que uma crítica dura sobre os rumos da lit. bras. pode vir a influenciar a literatura brasileira? Você acha que o escritor dá (ou daria) ouvido à crítica? Você acredita, em resumo, no poder de diálogo direto entre críticos e escritores?

    Mais uma coisa: OK, digamos que Pécora tenha escrito uma bela resenha. Ainda sobre a questão do espaço – não valeria mais a pena dar lugar a algum livro de editora independente que as pessoas não conheceriam se não fosse aquele espaço? Como “Esperando Zilanda”, sobre o qual vc escreveu para o concurso do Todoprosa. Edney já tem seu espaço garantido na mídia, faça o que fizer. Se o livro dele é ruim (e eu não sei, pois não li), merece o espaço crítico? OK, pensando neste caso específico, eu diria que sim, pois o livro do Edney estava ganhando prêmios e me parece lógico (e necessário) que alguém ofereça um contraponto crítico. Mas são perguntas que ficam na minha cabeça.

    Obrigado pelo comentário inteligentíssimo.

  8. 03.Nov.2011, 11:40    Reply

    1) Como disse o Charbel: “lançar a bola para que outros cortem.” – a crítica é sempre um meio do caminho, não? Há um grau zero da crítica que vem antes da Obra ser boa ou ruim: é justamente o exercício de retomada e revisão (da Literatura, dos critérios) que ela sempre coloca em jogo – às vezes contra a vontade do próprio crítico.

    2) Há uma tentativa, no texto, de autonomizar o campo da ficção e o campo da crítica que me incomoda – e já que o Charbel falou de Auerbach, é o próprio que, em Farinata e Cavalcante (esse capítulo dá pano pra manga), mostra como nos escritos teóricos de Dante há certo conservadorismo, um esforço de deixar as coisas em seus lugares que é completamente despedaçado na Comédia, ela sim, Crítica Literária e Criação no mais alto grau.

    3) Há algo fantástico sobre isso n’O Cânone Ocidental, do Bloom. Ele escreve: “Lowell e Larkin aí estão [na lista dos melhores] porque parece que sou o único crítico vivo a achá-los superestimados, e portanto provavelmente estou errado e devo assumir que me deixei cegar por considerações extra-estéticas, que detesto e tento evitar”. Po, se isso não é auto-observação, o que seria, não?

    4) Essa polêmica entre o alcance da escrita acadêmica e o alcance da escrita jornalística é espinhosa [faz alguma diferença dizer que já debati essa questão com o Autor do Texto Acima, face a face, algumas vezes? Tornará meu posicionamento mais crível, colocar esse tempero biográfico?]: de que adianta atingir 50, 100 pessoas que vão dizer: “Baita texto, Nesky!”.

    5) Aliás, não é curioso que os únicos que se coçaram para vir debater sejam justamente os acadêmicos?

  9. 04.Nov.2011, 01:16    Reply

    Não quero comentar o texto. Quero apenas comentar que, acredito, é a primeira vez que leio comentários realmente necessários, ao invés do tradicional “legal” ou “você falou besteira, eu não gosto de você”. Bem, nessa linha, eu poderia também ficar calado. Mas me acometeu uma síndrome de Nick Hornby, eu precisava de uma digressão qualquer para não me sentir acuado.

    Abs

  10. Felipe Charbel
    04.Nov.2011, 03:20    Reply

    1. Nesky, não acho que uma crítica seja capaz de influenciar os rumos da literatura brasileira. Primeiro porque, me parece, o único caminho possível, decente, para a literatura brasileira, é o mergulho certeiro no abismo, sem acrobacias. É extinguir-se voluntariamente. Deu pra ti. Quando deixarmos de qualificá-la como “brasileira”, e dissermos apenas “literatura”, a coisa pode começar a andar (uso o plural porque fui o primeiro a falar em “literatura brasileira” nesse espaço, quando ela, aliás, não foi solicitada por mais ninguém).

    Indo do geral para o particular, acredito que uma crítica seja capaz de instaurar um diálogo verdadeiro, como gatilho para a auto-compreensão de um autor da própria poética; pode também estimulá-lo pela negativa (o autor se torna melhor tentando dar uma resposta ao crítico). Existem exemplos dessas duas variações: Bielinski e Dostoievski, Clement Greenberg e Pollock, Machado e Silvio Romero.

    Mas é forçoso notar que, muitas vezes, as críticas negativas não são bem recebidas pelos autores (até porque, também é forçoso notar, muitos críticos por vezes se exasperam, perdem a elegância, até mesmo porque, é forçoso notar, certos livros são tão ruins, tão pretensiosos, tão bobos, e infelizmente tão comuns, certos autores tão deslumbrados, tão cheios de si em seus balanços à beira-mar, que a virulência verbal pode ser uma alternativa plausível, razoável, às vezes necessária, para fazer ver o ridículo).

    Tanto o crítico como o escritor são vidraças: se um autor influente na mídia escreve um livro ruim que mobiliza os códigos da, digamos, alta literatura, ele precisa ser avaliado pelo uso que faz desses códigos, até mesmo para que os leitores mais atentos (por exemplo, os leitores dos suplementos literários, que, como disse certa vez o Antonio Marcos, são leitores minimamente preparados e interessados, que dedicam seu tempo a ler sobre cultura) não sejam enganados pelo “rótulo” do produto. Alcir Pécora falando sobre o livro do Edney Silvestre exerce esse papel. O nome “Alcir Pécora”, associado aos caminhos argumentativos que ele constrói, releva que imagem não é tudo, e que, afinal, alguma qualidade literária ainda é desejável.

    O mesmo vale para o autor iniciante, que na minha opinião não deve ser tratado como café-com-leite — nesse caso específico, acredito que a faca do crítico deva cortar na proporção da tentativa do vôo do autor. Você, por exemplo, no seu Página Assombrada, mobiliza “n” códigos da alta literatura, e, ao fazer isso, se expõe à mesma faca que o crítico usa para cortar a carne de Bolaño, Pynchon e Vila-Matas. Você se expõe bastante. Os riscos são grandes. Mas receber um juízo negativo bem fundamentado, ruidoso, é muito mais digno, muito mais valoroso para você, que ser chamado, por exemplo, de Jovem Escritor Bacana, e ser tratado como tal, como a revelação do momento. Porque você é um autor, não um rótulo.

    2. Kelvin, o exemplo do Bloom foi perfeito. Reconhecer os próprios limites, observar a si mesmo o tempo todo. E sobre a mútua alimentação entre crítica e criação ficcional, concordo contigo: o grande autor tem que ser, no mínimo, um crítico de si mesmo. E os grandes trazem na própria poética uma memória objetiva da tradição, ao mesmo tempo deglutida e preservada: um verme que faz questão de mostrar que respira.

  11. tetê martins
    04.Nov.2011, 13:24    Reply

    Crítica da crítica da crítica ….
    …também poderia ser: estou ficando confusa, muito confusa, sem saber em que tempos estamos! Vamos ao texto: o Crítico Literário Hipotético é tão frágil como personagem ficcional desse nosso início de século, que me perguntei se quem o imaginou estaria exercendo o seu direito humano aos questionamentos ou ao seu direito – também humano – ao falatório superficialíssimo. Me explico: “É doutor em letras, e leciona na faculdade onde se formou, tentando ensinar qualquer coisa para alunos desinteressados de 18 anos.” Alunos desinteressados? Humm…então, todos os alunos do curso de Letras são desinteressados? Ou pior: as pessoas com 18 anos são desinteressadas em qualquer curso? … Puxa, menino, me lembrou a minha avó reclamando da juventude da minha mãe, que não se interessavam por nada!
    O personagem continua a ser delineado – ou, melhor: apresentado. “É moderadamente feliz …” . Querido, que parágrafo primoroso, né … o Hipotético se tornando Real, tá certo que no real da literatura, onde os limites das realidades até se confundem. (olha, você tem jeito pra literatura!). Mas, tome cuidado, porque mesmo nesse mundo onde os limites não obedecem a todas as regras, a regrinha da coerência do personagem deve ser mantida. Sabe, penso mesmo que essa é a maior qualidade de um escritor: ao incoerente dar coerência, me entende? Vou te poupar de citar personagens que me fascinam por essa “coerência” com as suas incoerências. O absurdo real.
    Então, se o Crítico Hipotético pensa que suas idéias não encontram espaço na academia, “por isso escreve também as infames críticas jornalísticas”. E você continua: “pelo dinheiro que não seria”, hum: quer dizer que esse Hipotético Professor desiludido pela academia – onde suas idéias não se reverberam – e pelos alunos, todos desinteressados, torna-se um Hipotético Crítico que não pensa no dinheiro extra (em que faculdade hipotética ele daria aulas? Em que país hipotético se passa a sua história?) escrevendo críticas infames, infames? Então ele é uma amarguradão mas que gosta de ler?. Gosta de ler, não, né: “As editoras nem mais perguntam se ele quer receber o lançamento X ou Y, apenas mandam os livros”. Pelo que eu entendi: então ele fica puto até quando as editoras mandam um “monte” de livros pra ele?
    Nesse momento somos apresentados ao Jovem Escritor Bacana – que, esse, tadinho, não encontrou espaço nem no seu texto (!) – sobre o que era o Livro Promissor? Quais assuntos abordava? Ele era feio? Bonito? O que passou, hipoteticamente, é claro, pela cabeça desse crítico? O que meu Deus fez com que ele “Pela trigésima página, larga o livro, sem vontade de ler mais, e decide começar o novo de Roth.” Bem, aí, realmente me senti esquizofrênica: “No fim de semana, o crítico senta e escreve duas resenhas. Fala sobre a função da literatura, a perplexidade do escritor perante o mundo. Fala de Kafka, Borges e Piglia. Fala do cuidado estilístico, da dificuldade em construir personagens críveis.” Então, se ele escreveu DUAS resenhas, quer dizer que ele também escreveu UMA resenha sobre o Livro Promissor do Jovem Escritor Bacana? E, me conta: existiu uma diferença enorme sobre as resenhas? É essa a sua crítica com os críticos? O consagrado versus o novo?
    Não, não. Você tá querendo me dizer que o problema foi o crítico não mencionar a úlcera? A fantasia com as alunas? Puxa! Realmente a “dificuldade em construir personagens críveis” acabou me rondando, me rondando.

    Saímos então do hipotético para a realidade: “Valorizo e aprecio a profissão de crítico. Sonho com uma carreira nessa linha, inclusive”, “e sempre prefiro livros que acho que vou gostar (de um autor que já me agrada, ou algum desconhecido sobre o qual ouvi bons comentários)” – Bem, menino, aqui comecei a ficar com medo, juro! É óbvio que eu também tenho críticas aos críticos, mas, também – para você nada óbvio! – eu acredito que discussões sérias a respeito dessa forma de crítica pode nós levar a “fazer diferente”, nénão? Me peguei te imaginando com quarenta e dois anos, se hoje você “resenha” somente autores que já te agradam (cada um tem seus Roth de predileção) e ALGUM desconhecido que você ouviu “bons” comentários. Gente! O que será quando você se tornar um crítico mesmo? Acho que ainda dá tempo, na boa: menino tem que ler o Romance Promissor do Jovem Escritor Bacana que ninguém falou ainda! Estar com os olhos, a alma, a grafia bem antenados.
    Na parte “autobiográfica” do seu texto, sua mea-culpa, bem…você só cita clássicos! Impressionante! O que me leva a acreditar, tristemente!, que o Hipotético Crítico é uma mera projeção sua para o futuro. Se você continuar assim, será mesmo um ciumento e invejoso do novo, do criativo. “O fato de que ele passou dos quarenta não o deixará levemente rancoroso em relação a um jovem escritor que é visto como uma “promessa”?”. A juventude, meu querido, nem sempre é uma questão cronológica, nem sempre! Assim como também a ranzizice pueril. Pois, acabei de ler um texto velho e ranzinza de um jovem …

  12. 07.Nov.2011, 22:32    Reply

    Ué, Pessoal? Deixaram o samba morrer? No mínimo, há que se aplaudir o texto da Tetê Martins e, por esse via, ficar feliz pelo texto do AX – sem o qual não haveria o texto da TM. Pois até um crítico literário e professor universitário de quarenta anos como eu pode, às vezes, encontrar em um texto razão pra felicidade e celebração – e isso encontrei no texto da TM.

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