Instituto Moreira Salles

Hugo Cabret e a máquina do mundo

IMS | 20.02.2012, 19:40

Cena de A invenção de Hugo Cabret: a sociedade humana como engrenagem

Não deve ser por acaso que os dois principais concorrentes ao Oscar deste ano – A invenção de Hugo Cabret e O artista – são, cada um a seu modo, homenagens nostálgicas à infância do cinema.

Uma cena de Hugo – tão crucial que é repetida duas vezes no filme – talvez ajude a entender o fenômeno. É a reconstituição da célebre sessão de cinema em Paris, em 1895, em que os irmãos Lumière exibiram pela primeira vez A chegada do trem à estação de La Ciotat.

YouTube Preview Image

Diante da imagem do trem vindo em direção à sala, os espectadores se assustam: alguns saem correndo, outros se abaixam, muitos gritam. Na plateia de Hugo, mais de um século depois, rimos da ingenuidade daqueles primeiros espectadores com um misto de superioridade, condescendência e… inveja. Nos encantamos com o encantamento deles.

Mesmo desprovido de som e de cor, mesmo em duas dimensões, o filmete dos Lumière produzia naquele público neófito uma forte impressão de realidade. Por quê? Obviamente, porque aqueles espectadores desconheciam até então a nova invenção, não estavam habituados às imagens em movimento produzidas por ela. Parecia-lhes pura mágica.

Imaginação ativa

Mas podemos olhar a questão pelo ângulo oposto. Aqueles observadores supostamente ingênuos possuíam uma notável capacidade de imaginação, que lhes permitia suprir aquilo de que as imagens careciam: cor, profundidade, som. Em outras palavras, eles participavam mais ativamente da construção da realidade fílmica. Olhando assim, aquilo que, inicialmente, nos parecia uma deficiência da parte deles revela-se, ao contrário, uma espécie de superioridade.

Por esse ponto de vista, é possível ler a evolução técnica do cinema como um processo ao mesmo tempo de avanço e de perda. A cada nova conquista tecnológica – a introdução do som, da cor, da terceira dimensão – é como se perdêssemos ou embotássemos, como espectadores, uma faculdade criativa, um elemento de participação ativa na produção do espetáculo. Tornamo-nos mais passivos, em suma. Necessitados de doses cada vez maiores de truques ilusionistas.

É essa ambivalência que anima A invenção de Hugo Cabret e o torna tão potente, tão inquietante e essencial.

Em outra cena tocante do filme, Hugo Cabret (Asa Butterfield) e sua amiga Isabelle (Chloë Grace Moretz) folheiam na biblioteca um livro de história do cinema e mergulham em filmes de Chaplin, Buster Keaton, Griffith, épicos bíblicos etc. Mediante a capacidade de fantasia dos dois garotos, as fotos do livro ganham vida e movimento.

Celebração e lamento

No limiar de uma nova revolução – o cinema digital e em 3D –, somos levados pelo filme de Scorsese a pensar no sentido ambivalente do avanço tecnológico. Por um lado, ao manusear uma tecnologia de ponta, o cineasta exalta o fascínio que ela produz; por outro, indica sutilmente o que há de perda nesse processo. Assim, Hugo é ao mesmo tempo uma celebração e um lamento.

A “passagem do bastão” dos Lumière a Méliès é altamente significativa. Enquanto os criadores do cinematógrafo o consideravam “um invento sem futuro”, uma curiosidade de feira que logo esgotaria seu encanto, o prestidigitador Méliès (Ben Kingsley, no filme) apostava no potencial infinito de fantasia do novo meio. Não por acaso, ele fez experiências com a cor (pintando alguns de seus filmes quadro a quadro) e até com rudimentos de tridimensionalidade.

Assim como o artista e mágico Méliès é necessário para dar pleno sentido à invenção dos cientistas e negociantes Lumière, no filme de Scorsese o afeto é essencial para completar o sentido da técnica. O indivíduo, assim como a cidade e o mundo, é um organismo que só ganha vida com o amor.

O autômato reconstruído pelo pai de Hugo Cabret só pode funcionar com uma chave em forma de coração, cuja detentora não é senão a garota (Isabelle) que abre e preenche o coração do próprio Hugo. Uma fábula singela, mas que reverbera em múltiplos desdobramentos.

O mundo como engrenagem

A ideia da sociedade humana como engrenagem é introduzida logo no início de Hugo, quando a imagem do mecanismo do imenso relógio da estação de trem se funde com a tomada aérea das ruas de Paris, numa deslumbrante sequência de fantasia moderna que faz pensar em Tim Burton.

O relógio, o autômato, os brinquedos da loja de Méliès, os trens, a estação, a cidade – tudo é engrenagem. O próprio Hugo fala a certa altura do receio de ser uma peça descartável na máquina do mundo e da esperança de que sua vida tenha um propósito. Aqui, a cena:

YouTube Preview Image

Técnica e imaginação, ciência e afeto, indústria e arte são binômios que se completam em Hugo e no grande cinema em geral. Criador compulsivo e essencialmente otimista, Scorsese lamenta o que se perde ao longo da história, mas enfatiza o que se mantém e se perpetua. Parafraseando Paulinho da Viola, ele não vive no passado; o passado é que vive nele.

Se o seu Méliès declara a certa altura que “os finais felizes só existem no cinema”, o filme ironicamente corrobora a afirmação, terminando sua narrativa num momento de glória, reabilitação e reconhecimento do cineasta pioneiro. Na realidade, Méliès continuou na miséria, jamais voltou a filmar e terminou seus dias num refúgio para artistas. Mas essa é outra história.



21 comentrios para "Hugo Cabret e a máquina do mundo"

  1. maria helena cury
    20.Feb.2012, 23:14    Reply

    para este e todos os filmes que usam técnica e imaginação, afeto e ciência,indústria e arte>>para o grande cinema segundo Z.G.C.>um poema de Vinícius de Moraes que em Los Angeles por um período de sua vida teve muito perto desta arte :O cinema é infinito-não se mede.Não tem passado nem futuro.Cada imagem só existe interligada à que a antecedeu e à que a sucede. O cinema é a presciente antevisão na sucessão de imagens. O cinema é o que não se vê, é o que não é Mas resulta: a indizível dimensão.Cinema é Odessa, imóvel na manhã À espera do massacre;é Nevski; é Ivan, O Terrível ; és tu, mestre!maior Entre os maiores, grande destinado…Muito bem Eisenstein. Muito obrigado.Spasibo,tovarishch.Khorosho > Los Angeles 12/02/1948 meu muito obrigada ao poeta Vinícius, a Scorsese, aos irmãos Taviani, a Antonioni, À Fellini, À Orson Welles, à Mélies que sabe que finais felizes acontecem só nos cinemas , a Chaplin…e ao Zé que nos passa isto com tanta paixão. obrigada Zé Geraldo Couto que ama a arte que aprisiona a felicidade.

    • zé geraldo
      23.Feb.2012, 18:44    Reply

      querida maria helena,
      que bela lembrança essa do poema do vinicius. e os cineastas que você exaltou no final são alguns dos que me são mais caros. este espaço é um pouco uma celebração da arte deles.
      beijo grande, obrigado pela visita.

  2. maria helena cury
    21.Feb.2012, 02:30    Reply

    por que demora tanto

  3. Joao Luiz Vieira
    22.Feb.2012, 11:24    Reply

    Um belo texto, que faz jus ao filme maravilhoso que é esse Hugo Cabret! Parabéns e um abraço (este ano não pude ir a Tiradentes, Zé Geraldo, mas lembrei muito de nosso divertido juri ano passado. Você foi?). Abração!

    • zé geraldo
      23.Feb.2012, 18:42    Reply

      joão luiz, meu querido: que bom que você gostou do filme e do texto. você é muito generoso. sim, fui a tiradentes e também lembrei do nosso júri competente e divertido.
      grande abraço.

  4. Ronnie
    24.Feb.2012, 10:57    Reply

    Enfim li um texto preciso e acessível sobre o filme do ano. Clareza e profundidade são mesmo para poucos.

    • zé geraldo
      24.Feb.2012, 15:54    Reply

      puxa, ronnie. suas palavras são tudo o que eu queria ler/ouvir. dão um alento muito grande.
      muito obrigado.
      grande abraço, volte sempre.

  5. 24.Feb.2012, 11:26    Reply

    Olá Zé (bom, ainda não sei se possa chamá-lo assim). Sobre a questão das máquinas, tem outra coisa interessante também: O Hugo é o menino que faz o relógio funcionar, que está ao centro da estação. Não seria o relógio uma representação desse coração, onde está o próprio Hugo? E não seria o Melies o próprio “tempo perdido”, à espera de uma engrenagem para entrar nos trilhos? Enfim, acho que o filme gera muitas interpretações. Abraços. Ótimo post, como costume.

    • zé geraldo
      24.Feb.2012, 15:55    Reply

      caro rafael:
      muito interessantes e estimulantes essas suas hipóteses. acho que as interpretações possíveis são mesmo inúmeras.
      abração.

  6. 24.Feb.2012, 22:10    Reply

    Perdoe-me discordar de um ponto nevrálgico de seu comentário. Mas quando você diz que “é possível ler a evolução técnica do cinema como um processo ao mesmo tempo de avanço e de perda” creio que estejas cometendo um erro crasso, no mínimo. E considerar o cinema como uma arte cada vez mais “passiva”, por causa da cor, som, 3d, etc, parece-me uma absurda falta de argumentação. Partindo do seu ponto de vista, teríamos de supor que “antes do cinema a imaginação era melhor, pois só tínhamos as fotos e então pensaríamos no contexto”… “antes da foto era melhor, pois só tinhamos a escrita e então a imaginação era mais usada”… “antes da escrita era melhor, pois só tínhamos as coisas em si mesmas e então a criação acontecia”. Ou seja, chegaríamos ao prinícipio de tudo e, por assim dizer, não existiria nenhuma das artes, incluindo, evidentemente, o cinema, cerne deste comentário. O mais estranho é que você mesmo refuta o seu próprio argumento quando afirma que “Técnica e imaginação, ciência e afeto, indústria e arte são binômios que se completam em Hugo e no grande cinema em geral”. É necessário não confundir formato e conteúdo, e me parece que este é a grande cizânia tanto neste comentário quanto no filme de Scorsese. Talvez por conhecer sobremaneira a história do cinema e com tamanha intensidade, fato comprovado em película com “A Personal Journey with Martin Scorsese Through American Movies”, documentário imprescindível para compreender o cinema americano, o diretor deixou-se levar por um certo deslumbre, algo notório em suas últimas produções, sobretudo nas parcerias com Di Caprio – aliás, um péssimo ator. Poder-se-ia, então, dizer que tal análise e tal produção cinematográfica padecem do mal da metonímia (totum pro parte), buscando estruturar-se sob uma base pouco sólida e que não tem coesão suficiente para suportar uma verificação de dados primários que compõem a sétima arte.

    • zé geraldo
      28.Feb.2012, 13:33    Reply

      caro evandro:
      parece-me que você leu com demasiada pressa e parti pris meu comentário, mas respeito seus juízos defintivos sobre meu texto, sobre scorsese, di caprio e tudo o mais.
      não entendi por que não se pode pensar no avanço tecnológico como um processo ambivalente de ganho e perda. isso vale para quase tudo. o homem pré-urbano tinha um olfato e uma audição muito melhores do que o homem atual. reconhecer isso não é pregar uma volta à pré-história, mas reconhecer que existe perda implicada no desenvolvimento histórico. se essa ideia é superficial, me desculpe, eu não pretendia escrever um tratado antropológico.
      abraço, volte sempre.

  7. Roberto Gervitz
    25.Feb.2012, 14:04    Reply

    Belíssimo texto, José Geraldo, para um filme que o justifica. Uma grande homenagem ao cinema realizada por um grande cineasta.

    • zé geraldo
      28.Feb.2012, 13:34    Reply

      obrigado, roberto.
      é sempre bom ouvir palavras generosas e animadoras de um realizador que admiro muito. grande abraço.

  8. 27.Feb.2012, 14:12    Reply

    Excelente texto e reflexão sobre o cinema que é arte, linguagem, estética, técnica e também indústria e poder.
    É possível reproduzir em outro blog?

    • zé geraldo
      28.Feb.2012, 13:37    Reply

      cara taís:
      muito obrigado pela leitura generosa do meu texto. por mim, pode ser reproduzido à vontade. não sei se o instituto moreira salles teria alguma objeção. penso que não, desde que seja dado o devido crédito da origem.
      beijo grande.

  9. Christine Correa
    27.Feb.2012, 18:49    Reply

    Obrigada, José Geraldo. Adorei o texto, um profundo e claro convite à viagem que é o Hugo Cabret.

    • zé geraldo
      28.Feb.2012, 13:38    Reply

      obrigado, christine, pela leitura generosa e pelas palavras simpáticas.
      abraço, volte sempre.

  10. Maria
    01.Mar.2012, 20:35    Reply

    Oi Zé. Seu texto e o filme me fizeram lembrar Bergman que disse no autobiográfico “A Lanterna Mágica” como, passados 60 anos, ele ainda se emocionava com a magia que o cinema proporcionava: as figuras e seus movimentos, na tela, ganhando vida (neste trecho ele estava precisamente vendo uma seleção de filmes antigos). E Hugo Cabret parece, como você bem colocou, nos falar sobre essa ambivalência de celebrações e lamentos, perdas e ganhos que é o cinema e a própria vida. Bom, foi essa a minha compreensão do texto.
    Sabe, fui assistir ao filme em um shopping (aqui em SP não há outra opção), justamente onde predomina a exibição dos blockbusters. E eu pensei: agora vai ser uma enxurrada de pipoca, refrigerante e “uuuhhhuuus”. O problema, nem é o “uuuhhhuuu”, mas creio que a banalização dele. Numa ocasião especial é até válido (Hugo Cabret e Erland Josephson, por exemplo, merecem um grande”uuuuhhhu”, você não acha?) mas como “precisamos” parecer permanentemente felizes e jovens haja paciência para tantos “uuuhhhuuus” e “aaaeee galerinha”. Beijo.

    • zé geraldo
      02.Mar.2012, 21:32    Reply

      maria:
      sua leitura sensível do texto é justamente o que eu tinha em mente quando escrevi. você só não disse se os “uuuhhhuuus” se confirmaram na sessão, ou se o filme conseguiu deixar a “galerinha” atenta e silenciosa.
      beijão, obrigado pela visita e pelo comentário.

  11. Maria
    04.Mar.2012, 21:57    Reply

    Sobressaíram pipocas e refrigerantes e houve mais “zumzumzuns’ do que “uuuhhhuuuus”.
    Fui a uma sessão noturna então “a galera” era mais adulta. E havia alguns petizes que, como o afilhado de um amigo, lá pela metade do filme começaram a brincar com os óculos, mas sem perturbar muito.
    Pior foi quando assisti ao A Música Segundo Tom Jobim. Uma dupla dinâmica (mãe e filha) sentou-se ao meu lado e comportou-se como se a sala do cinema fosse a própria: conversaram, alto, e deixaram o celular ligado. E óbvio, quando este tocou, a filha atendeu e passando por cima da mãe e de mim, foi terminar a conversa lá fora. Mas voltou. Daí a pouco a mãe começou a “narrar” o que se passava na tela, então ficava aquele “zumzumzum” alternado por “ uuuhhuuu”- Olha o Tom, que lindo”, “uuhhhuuu” Olha o Chico, que novinho, que gracinha”. Parecia que eu estava num estádio de futebol. Olha, só não abandonei o campo porque o documentário é muito bom e me segurou. Espero ter mais sorte quando for ver os ratos e os porcos. Ótima semana, beijos.

  12. Marcos Alexandre
    06.Mar.2012, 16:27    Reply

    Caro Zé,

    Ainda não vi o filme, infelizmente. Motivo: as cópias (pelo menos as daqui) só têm vindo dubladas. Não assisto a filmes dublados, quando tenho a opção de assiti-los com o áudio e legenda (originais). Quem conhece cinema, sabe a diferença nada sutil entre uma e outra.

    Em todo caso, vale a pena comentar esse seu post por dois motivos: sua crítica desvela a verdadeira magia do cinema, que prescinde das cores ou mesmo do som (como em O Artista). E em segundo porque o próprio texto assume ar nostálgico, imbuído da paixão do crítico pela arte que o inunda.

    Há que se reconhecer, portanto, a habilidade com que consegue colocar na mesma proporção a arte de quem realmente conhece o cinema e com ele sabe dialogar e a desprentensiosa curiosidade de um espectador.

    Um abraço!

Comentar





  • * requerido
  • Seu e-mail no ser publicado
 
 
 
IMS