Ser aquilo com quem simpatizo – por Eucanaã Ferraz
Quando comecei a escrever poemas, fazia sobretudo pastiches de Fernando Pessoa. De um heterônimo em especial: Alberto Caeiro. Eu não queria menos que isso, ser Fernando Pessoa, que escreveu entre outras declarações de despersonalização, ou de personalização pelo outro: “eu quero ser sempre aquilo com quem eu simpatizo”. Mas é certo que a prosa, de ficção ou não, faz vibrar, mais que o verso, aquele desejo de nos tornarmos quem não somos, pois sua escrita engendra ideias, comportamentos, caracteres, destinos, uma série de pistas a convidar: quer ser como este aqui? Quando lemos poesia, quedamo-nos maravilhados pela linguagem ela mesma, pelo vazio da inexistência, pela total impessoalidade. Poemas são apenas fluxos, ritmos, sonoridades, e tudo o que não parece ser isso é apenas a inevitável permanência na linguagem – e todo poema quer ser um escape para fora dela. Já as narrativas, ficcionais ou não, são estadias em que a escrita se acomoda na linguagem e dela se aproveita como viajantes o fazem com os lugares para onde vão.
Essas anotações me vêm a propósito de um sebo na Lituânia. Parece título de conto: “Um sebo na Lituânia”. Não é. A livraria se chama Mint Vinetu. E fez a seguinte campanha: “Become someone else”. A sugestão – “torne-se alguém” – pode ser traduzida em termos pessoanos: torne-se aquilo com quem simpatiza. E, sendo um sebo, os livros são a fonte, ou o espelho, no qual podemos nos ver sendo quem, momentaneamente, desejamos ser, porque aquelas vidas de papel, de palavras e mais nada, tantas vezes parecem mais reais que tudo a nossa volta, inclusive aquilo que chamamos de: nós mesmos. Um dos grandes prazeres a que acedemos na leitura é mesmo este: ser o que não se é.
Seguem, abaixo, os pôsteres da campanha, desenvolvidos pela agência de propaganda Love Agency. É uma maravilha o esmalte verde nas unhas da leitora de Frankenstein!































10 comentrios para "Ser aquilo com quem simpatizo – por Eucanaã Ferraz"
que maravilha, eucanaã! obrigada!
Drummond, você e meu esmalte azul-carbono têm me tornado alguém.
Ótimo conceito, ótima campanha. Obrigada por compartilhar.
Que beleza, Eucanaã. E “Um sebo na Lituânia” daria mesmo um belo conto… Abraços!
Ou então, como diria o conterrâneo e contemporâneo Mário Sá Carneiro, na voz da Adriana Calcanhoto: Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
E, de novo, que beleza, Eucanaã!
Muito bacana essas anotações, e as ilustrações, Eucanâa.
Detalhe: a tradução de “become someone else” é Torne-se outra pessoa, e não Torne-se alguém.
Fiquei encantada com as imagens e com a tua descrição da poesia, fofo!
Eucanaã, adorei. Interessante, muito. Fantásticas, as fotos.
Poemas são apenas fluxos, ritmos, sonoridades. O essencial é voltar-se para a essência, para a permanência da linguagem. E pensar que todo comentário desencadeia-se a partir de imagens ricas que simulam apropriações ou como está dito ‘ser o que não se é’. Muito animador esse papo todo, tendo em vista o reinício de ano pós carnaval.
Gostei das imagens e se já era tua fã, agora fiquei ainda mais. Você é tão bom quanto Pessoa, rapaz!