Instituto Moreira Salles

Ser aquilo com quem simpatizo – por Eucanaã Ferraz

IMS | 27.01.2012, 15:35

 

Quando comecei a escrever poemas, fazia sobretudo pastiches de Fernando Pessoa. De um heterônimo em especial: Alberto Caeiro. Eu não queria menos que isso, ser Fernando Pessoa, que escreveu entre outras declarações de despersonalização, ou de personalização pelo outro: “eu quero ser sempre aquilo com quem eu simpatizo”. Mas é certo que a prosa, de ficção ou não, faz vibrar, mais que o verso, aquele desejo de nos tornarmos quem não somos, pois sua escrita engendra ideias, comportamentos, caracteres, destinos, uma série de pistas a convidar: quer ser como este aqui? Quando lemos poesia, quedamo-nos maravilhados pela linguagem ela mesma, pelo vazio da inexistência, pela total impessoalidade. Poemas são apenas fluxos, ritmos, sonoridades, e tudo o que não parece ser isso é apenas a inevitável permanência na linguagem – e todo poema quer ser um escape para fora dela. Já as narrativas, ficcionais ou não, são estadias em que a escrita se acomoda na linguagem e dela se aproveita como viajantes o fazem com os lugares para onde vão.

Essas anotações me vêm a propósito de um sebo na Lituânia. Parece título de conto: “Um sebo na Lituânia”. Não é. A livraria se chama Mint Vinetu. E fez a seguinte campanha: “Become someone else”. A sugestão – “torne-se alguém” – pode ser traduzida em termos pessoanos: torne-se aquilo com quem simpatiza. E, sendo um sebo, os livros são a fonte, ou o espelho, no qual podemos nos ver sendo quem, momentaneamente, desejamos ser, porque aquelas vidas de papel, de palavras e mais nada, tantas vezes parecem mais reais que tudo a nossa volta, inclusive aquilo que chamamos de: nós mesmos. Um dos grandes prazeres a que acedemos na leitura é mesmo este: ser o que não se é.

Seguem, abaixo, os pôsteres da campanha, desenvolvidos pela agência de propaganda Love Agency. É uma maravilha o esmalte verde nas unhas da leitora de Frankenstein!

 

 

 

 

 



10 comentrios para "Ser aquilo com quem simpatizo – por Eucanaã Ferraz"

  1. 27.Jan.2012, 18:13    Reply

    que maravilha, eucanaã! obrigada!

  2. Elizama
    29.Jan.2012, 14:40    Reply

    Drummond, você e meu esmalte azul-carbono têm me tornado alguém.

  3. 30.Jan.2012, 11:19    Reply

    Ótimo conceito, ótima campanha. Obrigada por compartilhar.

  4. Fred Coelho
    30.Jan.2012, 16:22    Reply

    Que beleza, Eucanaã. E “Um sebo na Lituânia” daria mesmo um belo conto… Abraços!

  5. Rachel Rezende
    31.Jan.2012, 13:25    Reply

    Ou então, como diria o conterrâneo e contemporâneo Mário Sá Carneiro, na voz da Adriana Calcanhoto: Eu não sou eu nem sou o outro,
    Sou qualquer coisa de intermédio:
    Pilar da ponte de tédio
    Que vai de mim para o Outro.

    E, de novo, que beleza, Eucanaã!

  6. Mauro Pinheiro
    06.Feb.2012, 12:46    Reply

    Muito bacana essas anotações, e as ilustrações, Eucanâa.
    Detalhe: a tradução de “become someone else” é Torne-se outra pessoa, e não Torne-se alguém.

  7. 06.Feb.2012, 19:20    Reply

    Fiquei encantada com as imagens e com a tua descrição da poesia, fofo!

  8. Ana Reis Sá
    08.Feb.2012, 11:25    Reply

    Eucanaã, adorei. Interessante, muito. Fantásticas, as fotos.

  9. tania rivitti
    22.Feb.2012, 17:18    Reply

    Poemas são apenas fluxos, ritmos, sonoridades. O essencial é voltar-se para a essência, para a permanência da linguagem. E pensar que todo comentário desencadeia-se a partir de imagens ricas que simulam apropriações ou como está dito ‘ser o que não se é’. Muito animador esse papo todo, tendo em vista o reinício de ano pós carnaval.

  10. 01.Apr.2012, 20:29    Reply

    Gostei das imagens e se já era tua fã, agora fiquei ainda mais. Você é tão bom quanto Pessoa, rapaz!

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